segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009












176 - Ilações induzidas

Conversas melosas têm um efeito arrasador em Flávio Moretto, de Miracema. Fúlvio entregou-lhe as chaves na certeza de que, em alguns dias, embolsaria uma bela quantia na venda da jóia mais cara de seu estabelecimento.

- Flávio, eu sou um ourives! Isso aqui não é uma loja de carros usados, é uma joalheria...

Enquanto o irmão deixava o estacionamento, o fusca seguia para o “salão de beleza”, nos fundos, onde receberia maquiagem e brilho, para então ser oferecido a algum professor secundário, oprimido pelo transporte coletivo e pelos minguados proventos, disposto a sacrificar o estômago para saldar as prestações. Alguém que, provavelmente, daria início a uma gastrite, terminaria com uma úlcera e um carro ainda mais velho. Alguém que conheceria as manhas do carburador e se prenderia no trânsito caótico.

Flávio Moretto segura o volante de sua
Pathfinder importada, adiantamento de seus editores. O luxuoso utilitário zune pelo trânsito noturno da avenida Rebouças, rumo à Consolação. Na cabeça, pensamentos dispersos misturados a diálogos por serem escritos.

Amanda liga o rádio, um solo de sax o leva aos dias conturbados de anos atrás. A menina, Biotônico, o delegado - imagens que se fundem nos painéis luminosos, espalhados pelo trajeto de sempre. Será que o delegado desconfiou de alguma coisa? Biotônico merecia acabar assim? E a menina, quem era, afinal?

Em seguida, ele alinhou evidências que logo tratou de disfarçar com uma razão estapafúrdia qualquer. Os originais que a menina levara naquela noite no Copan não tinham seu endereço. Não poderiam jamais tê-lo encontrado sem que alguém conhecido o indicasse; a editora interessada nos seus originais poderia ser de outra pessoa, que não o pai do namorado de Juliana.

Coincidências são ilações induzidas. “Isso pode dar um bom argumento”, pensou ao mudar de estação. Mudou de lembranças, também. Estava agora diante de Raimundo Marcondes Fialho, o diretor do Caetano de Campos:

- Tem certeza do que vai fazer? Quantos anos faltam para a sua aposentadoria? - olhava-o como a um animal raro.

- Poucos anos... é o que sinto que terei se continuar lecionando.

- Você já agüentou tanto, mais um pouco e estará livre pra fazer o que quiser! Fazer o que quiser! - repetiu iluminando a vida que também o esperava.

- Com este salário, imagine a aposentadoria... Você está maluco, Marcondes! Se tiver sorte, curo minha úlcera e aproveito o que ainda me resta de vida para imaginar histórias fantásticas. Afinal, é o que mais as pessoas querem: ouvir histórias fantásticas...

- Agora que é famoso, vai nos abandonar às feras! - disse com rancor e inveja, que costumam andar sempre juntas.

- Espero que as histórias fiquem famosas, não eu!

O diretor apertou sua mão, pensando em pedir uma carona para o paraíso, ou pedir o endereço.

- Bem, amigo, vamos sentir sua falta. - disse, sem emoção.

- Vocês ficarão bem. - ele respondeu, pouco convicto.

Ex-professor e diretor abraçaram-se junto à porta do gabinete. No corredor, alguns colegas e alunos o esperavam para um último adeus - aqueles pelos quais ainda valeria a pena algum esforço.

Os alunos do Caetano de Campos não viram diferença entre o antigo mestre e o novo que lhes apresentaram. O calor da sala continuou a impedir que suas mentes se ocupassem de regras gramaticais, obras de antigos autores ou redações sobre assuntos de pouco interesse. Por muitos anos, outro novo herói se equilibraria naquela plataforma guenza, diante do quadro negro manchado pelo uso. As classes arruinadas seriam ocupadas por mais meninos e meninas alheios à necessidade de estar ali, por um período inteiro de seus dias banais, tampouco o jovem professor encontraria razão para ocupar este mesmo tempo com sua ladainha decorada.

Não fosse os poucos interessados, os de sempre, aleatórios, mera condição estatística, e tudo isso perderia o sentido.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009












175 – Negócio de irmão para irmão

Amanda jogou a muda de roupa numa sacola e atirou-a no banco traseiro do carro de Flávio Moretto.

A carreira do fusca azul encerrara-se quando teve início a do escritor. O dono da Fúlvio Car escolheu o que de melhor havia no pátio de sua loja.

- Finalmente, você vai ter um carro, Flávio! Essa lata velha não vale muito, mas está em bom estado. Com ela não dá nem pra pagar o pára-choques deste maquinão aqui! - Fúlvio Moretto abriu os braços, apresentando a última maravilha da indústria automobilística mundial.

- É isto o que vale um carro nacional perto de um importado - continuou Fúlvio enquanto polia os cromados. - Não chega a um capô destes.

- Não sei, Fúlvio... Empatar tanto dinheiro num carro... Afinal, é só um meio de transporte e isso pode ser feito com outro de menor valor.

- Aí está a questão, o valor. Quanto você merece de conforto, segurança, beleza? Se você se gosta e pode pagar, porque não oferecer pra si o melhor? Fique uma semana com ele e depois conversamos. Garanto que este será um negócio de irmão para irmão.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009












175 - Tolices recheadas de significados

Na frase de sempre, a forma taxativa de encerrar qualquer discussão. Tocaio se acostumara àquela maneira pejorativa de ela referir-se ao seu trabalho. Porém, nos últimos tempos, esta frase tornou-se quase elogiosa, já que sua carreira como escritor deslanchara com o lançamento do primeiro título de sucesso.

Tolices recheadas de significados, caminhos sagrados e referências bíblicas, tornaram-se leitura obrigatória em vários países. A onda esotérica atingia seu ápice, reunindo um público cada vez maior e ávido por mistérios celestiais, pergaminhos perdidos ou missões épicas.

O professor de literatura permitiu a rendição do leitor visceral ao escritor raso, ainda que o público encontrasse mensagens fundamentais naquelas páginas diagramadas em letras de corpo graúdo.

Fábulas são inverossímeis por natureza.

A flecha prateada sobre o fundo negro da capa, atingiu milhares de cabeceiras e estantes. A editora exigia novos textos, e o escritor acabou por ocupar o espaço do professor.

- Você vai trabalhar esta noite? - Amanda perguntou contrariada.

- Estou atrasado com o novo romance.

- Por que não trabalha aqui em casa? Temos tanto espaço!

- Prefiro o apartamento do Copan. Foi lá que tudo começou.

- Vai mesmo trabalhar... Ou trata-se de outra coisa? - Amanda fulminou Tocaio com seu jeito desconfiado. - Isso não é mais hora para sair, já são mais de dez horas...

- Quer ir comigo? Tem lugar pra você dormir lá... Podemos ouvir uns discos... Mas depois tem de me deixar trabalhar...

- Posso mesmo? Até que seria uma boa idéia... - sorriu, destilando outras intenções. - Vamos ver como se comporta o coelho dentro de sua toca...

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009












174 – Faltou dizer

Depois dos discursos inflamados, os arroubos refluíram, os ânimos se apaziguaram e os partidos políticos foram contemplados com seus quinhões de poder. A nação - purificada - partiria para uma nova fase, na qual as farmácias se tornariam alvo da ira moralista do governo, professoras fogosas assumiriam suas paixões clandestinas por idosos topetudos e um novo pacote econômico seria gestado pela equipe chefiada por um sociólogo.

- Quem sabe agora vai! - comentou Amanda em meio ao jantar de talheres polidos e louça personalizada.

- Dizem que é mais uma jogada eleitoreira - observou Flávio Moretto na sua habitual distância.

- Mas o ministro disse que não é candidato a nada...

- Ainda... Faltou dizer...

- Mas se der certo, que mal há nele candidatar-se?

Flávio empurrou o prato para o lado, dando espaço para a sobremesa.

- Outros candidatos não terão acesso ao aparato oficial para usar como plataforma política. Será um massacre! Bater a inflação é capital político até para uma reeleição.

- Mas não existe reeleição no Brasil! Quando foi que você ficou assim, tão cético, Flávio? - disse Amanda, antes de provar a sobremesa.

- Não existe ainda, faltou dizer. Acho que já ouvi isso alguma vez...

- Desta vez é diferente...

- A estabilidade servirá para vermos como somos pobres, o quanto falta para todos terem uma vida digna. Quando a população se der conta do quanto pode comprar com a nova moeda, vai cobrar providências.

- Bem, que assim seja! - ela disse equilibrando o pudim na colher de prata - Querer mais é o primeiro passo para a evolução. E além do mais, está todo mundo feliz no crediário das lojas, fazendo suas prestações fixas...

- E pagando duas ou três vezes mais, só de juros...

- Você não se satisfaz com nada! Você e seu mundo das letras...

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009












173 - Samba-enredo

O corpo do italiano não foi reclamado por ninguém. Apesar dos esforços burocráticos do consulado, não se encontraram vestígios da família. Depois de alguns dias, o oficial encarregado da estatística recorreu aos trâmites de praxe: riscou cinco nomes de uma lista maior e cinco caixões baixaram sepultura num cemitério da zona sul de São Paulo. Dentro de um deles, Flávio Fontoura, enterrado sob a identificação de Frederico Sganzella.

As passeatas continuaram, os deputados aprovaram o processo de impedimento do presidente, que acabou por renunciar. O esquema de corrupção foi desmontado, sem que os corruptores fossem arrolados nos processos que se seguiram. O testa de ferro fugiu do país, o vice assumiu a presidência e uma nova esperança foi plantada no seio da sociedade.

Escândalos no Brasil são como carnaval, desfilam sob os holofotes, chamando a atenção de todos, para na quarta-feira de cinzas ninguém lembrar mais do samba-enredo.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009












172 - Tocaios

Em meio à paisagem desolada de ruína moral e direitos pisoteados pela violência do crime ou pelo descaso do aparato de segurança, Flávio Moretto avistou um grupo conhecido. Amanda estava abraçada a um casal de jovens, como a se protegerem daquele ambiente deplorável. Ao chegar próximo, seu coração teve uma parada involuntária diante do que viu. Juliana tinha os cabelos castanhos, como os da menina.

- Nossa filha veio nos buscar. - Amanda disse num tom conciliatório.

- Você... - Tocaio balbuciou, sem concluir a oração.

- Gostou do meu cabelo? É uma surpresa... Para Flávio.

- Como vai, xará - disse o Flávio de Piracicaba.

- Tocaio... - corrigiu Amanda. - Vocês são tocaios, não é Flávio?

Flávio concordou atônito. Juliana deixou os braços do namorado e veio ao seu encontro.

- Quero agradecer o que fez por mim...

Ele continuou sem reação.

- Você salvou minha mãe - ela continuou -, sua coragem é digna de um marido que ama sua mulher... E é digna da admiração de uma... Filha!

Juliana, então, o abraçou fortemente, como havia feito na noite anterior. Por alguns momentos, ele voltou a sentir o calor de seu corpo, tocando seu peito, os corações batendo como tambores de uma tribo prestes a ser atacada, o suor brotando das mãos como uma cascata de sentimentos contraditórios.

Amanda, emocionada com aquela cena tocante, se juntou a eles num único abraço. Mesmo com os lábios doloridos, beijou-os, deixando-se derramar em lágrimas. Desta vez, lágrimas verdadeiras.

Tocaio as amparou como se dele agora dependesse a sorte daquela família. A sua família, afinal.

- Vamos, já acabou tudo. Podemos ir embora agora - ele disse com parcimônia e carinho paternal.

- Não, espere! - interrompeu Juliana, esfregando a manga da blusa nos olhos inundados - quero fazer uma coisa!

Flávio Moretto se surpreendeu quando ela o beijou diante da mãe e do namorado. Naquele momento, o constrangimento não fez parte de suas preocupações. Naquele ínfimo espaço de tempo, que durou o toque de seus lábios, uma vida inteira de ofensas e recriminações chegava ao fim. Naquele átimo, foi selada uma nova configuração no relacionamento entre ele, Amanda e Juliana. Uma composição de respeito, harmonia e calor humano, que haveria de chegar aos últimos dias de suas vidas.

Em meio ao ruído, das reclamações e xingamentos, o grupo deixou aquele espaço imundo para começar um novo tempo. Os dois Flávios de agora, seguraram a mão de suas amadas e partiram para o exterior da delegacia, onde sirenes nervosas e viaturas apressadas chegavam e partiam.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009












171 - Ignorâncias

Flávio Moretto resolveu sair daquela situação com outra questão.

- Estou dispensado, então?

- Sim... - disse soltando os ombros do ex-suspeito de alguma coisa – mas, por favor, não deixe a cidade nos próximos dias. É só por uma questão de rotina, até que tudo esteja esclarecido e o corpo liberado para a família.

Flávio Moretto levantou-se mantendo a postura encurvada.

- Acho que é o senhor quem precisa de médico! - brincou o delegado ao vê-lo arrastar-se para fora da sala.

Tocaio parou ao ouvir aquilo, depois seguiu sem olhar para trás. Esperava deixar aquele policial exatamente onde estava, pelo resto da vida. Dentro de suas desconfianças profissionais e longe de sua família.

Ao fundo, ouviu-se a voz do oficial, mandando que trouxessem o porteiro. Este se levantou empertigado, seguindo para a sala de interrogatórios. A porta se fechou novamente, encerrando o delegado e a testemunha dentro de suas ignorâncias.

Flávio Moretto alcançou o saguão onde outras pessoas aguardavam alguma solução para seus casos. Viu uma mulher chorar o roubo de seu carro, um senhor reclamar da falta de policiais para o atendimento, jovens algemados com semblante arrependido, sendo conduzidos aos trancos para um corredor lateral, onde brotavam mofo e veios de infiltração.