
176 - Ilações induzidas
Conversas melosas têm um efeito arrasador em Flávio Moretto, de Miracema. Fúlvio entregou-lhe as chaves na certeza de que, em alguns dias, embolsaria uma bela quantia na venda da jóia mais cara de seu estabelecimento.
- Flávio, eu sou um ourives! Isso aqui não é uma loja de carros usados, é uma joalheria...
Enquanto o irmão deixava o estacionamento, o fusca seguia para o “salão de beleza”, nos fundos, onde receberia maquiagem e brilho, para então ser oferecido a algum professor secundário, oprimido pelo transporte coletivo e pelos minguados proventos, disposto a sacrificar o estômago para saldar as prestações. Alguém que, provavelmente, daria início a uma gastrite, terminaria com uma úlcera e um carro ainda mais velho. Alguém que conheceria as manhas do carburador e se prenderia no trânsito caótico.
Flávio Moretto segura o volante de sua Pathfinder importada, adiantamento de seus editores. O luxuoso utilitário zune pelo trânsito noturno da avenida Rebouças, rumo à Consolação. Na cabeça, pensamentos dispersos misturados a diálogos por serem escritos.
Amanda liga o rádio, um solo de sax o leva aos dias conturbados de anos atrás. A menina, Biotônico, o delegado - imagens que se fundem nos painéis luminosos, espalhados pelo trajeto de sempre. Será que o delegado desconfiou de alguma coisa? Biotônico merecia acabar assim? E a menina, quem era, afinal?
Em seguida, ele alinhou evidências que logo tratou de disfarçar com uma razão estapafúrdia qualquer. Os originais que a menina levara naquela noite no Copan não tinham seu endereço. Não poderiam jamais tê-lo encontrado sem que alguém conhecido o indicasse; a editora interessada nos seus originais poderia ser de outra pessoa, que não o pai do namorado de Juliana.
Coincidências são ilações induzidas. “Isso pode dar um bom argumento”, pensou ao mudar de estação. Mudou de lembranças, também. Estava agora diante de Raimundo Marcondes Fialho, o diretor do Caetano de Campos:
- Tem certeza do que vai fazer? Quantos anos faltam para a sua aposentadoria? - olhava-o como a um animal raro.
- Poucos anos... é o que sinto que terei se continuar lecionando.
- Você já agüentou tanto, mais um pouco e estará livre pra fazer o que quiser! Fazer o que quiser! - repetiu iluminando a vida que também o esperava.
- Com este salário, imagine a aposentadoria... Você está maluco, Marcondes! Se tiver sorte, curo minha úlcera e aproveito o que ainda me resta de vida para imaginar histórias fantásticas. Afinal, é o que mais as pessoas querem: ouvir histórias fantásticas...
- Agora que é famoso, vai nos abandonar às feras! - disse com rancor e inveja, que costumam andar sempre juntas.
- Espero que as histórias fiquem famosas, não eu!
O diretor apertou sua mão, pensando em pedir uma carona para o paraíso, ou pedir o endereço.
- Bem, amigo, vamos sentir sua falta. - disse, sem emoção.
- Vocês ficarão bem. - ele respondeu, pouco convicto.
Ex-professor e diretor abraçaram-se junto à porta do gabinete. No corredor, alguns colegas e alunos o esperavam para um último adeus - aqueles pelos quais ainda valeria a pena algum esforço.
Os alunos do Caetano de Campos não viram diferença entre o antigo mestre e o novo que lhes apresentaram. O calor da sala continuou a impedir que suas mentes se ocupassem de regras gramaticais, obras de antigos autores ou redações sobre assuntos de pouco interesse. Por muitos anos, outro novo herói se equilibraria naquela plataforma guenza, diante do quadro negro manchado pelo uso. As classes arruinadas seriam ocupadas por mais meninos e meninas alheios à necessidade de estar ali, por um período inteiro de seus dias banais, tampouco o jovem professor encontraria razão para ocupar este mesmo tempo com sua ladainha decorada.
Não fosse os poucos interessados, os de sempre, aleatórios, mera condição estatística, e tudo isso perderia o sentido.
Conversas melosas têm um efeito arrasador em Flávio Moretto, de Miracema. Fúlvio entregou-lhe as chaves na certeza de que, em alguns dias, embolsaria uma bela quantia na venda da jóia mais cara de seu estabelecimento.
- Flávio, eu sou um ourives! Isso aqui não é uma loja de carros usados, é uma joalheria...
Enquanto o irmão deixava o estacionamento, o fusca seguia para o “salão de beleza”, nos fundos, onde receberia maquiagem e brilho, para então ser oferecido a algum professor secundário, oprimido pelo transporte coletivo e pelos minguados proventos, disposto a sacrificar o estômago para saldar as prestações. Alguém que, provavelmente, daria início a uma gastrite, terminaria com uma úlcera e um carro ainda mais velho. Alguém que conheceria as manhas do carburador e se prenderia no trânsito caótico.
Flávio Moretto segura o volante de sua Pathfinder importada, adiantamento de seus editores. O luxuoso utilitário zune pelo trânsito noturno da avenida Rebouças, rumo à Consolação. Na cabeça, pensamentos dispersos misturados a diálogos por serem escritos.
Amanda liga o rádio, um solo de sax o leva aos dias conturbados de anos atrás. A menina, Biotônico, o delegado - imagens que se fundem nos painéis luminosos, espalhados pelo trajeto de sempre. Será que o delegado desconfiou de alguma coisa? Biotônico merecia acabar assim? E a menina, quem era, afinal?
Em seguida, ele alinhou evidências que logo tratou de disfarçar com uma razão estapafúrdia qualquer. Os originais que a menina levara naquela noite no Copan não tinham seu endereço. Não poderiam jamais tê-lo encontrado sem que alguém conhecido o indicasse; a editora interessada nos seus originais poderia ser de outra pessoa, que não o pai do namorado de Juliana.
Coincidências são ilações induzidas. “Isso pode dar um bom argumento”, pensou ao mudar de estação. Mudou de lembranças, também. Estava agora diante de Raimundo Marcondes Fialho, o diretor do Caetano de Campos:
- Tem certeza do que vai fazer? Quantos anos faltam para a sua aposentadoria? - olhava-o como a um animal raro.
- Poucos anos... é o que sinto que terei se continuar lecionando.
- Você já agüentou tanto, mais um pouco e estará livre pra fazer o que quiser! Fazer o que quiser! - repetiu iluminando a vida que também o esperava.
- Com este salário, imagine a aposentadoria... Você está maluco, Marcondes! Se tiver sorte, curo minha úlcera e aproveito o que ainda me resta de vida para imaginar histórias fantásticas. Afinal, é o que mais as pessoas querem: ouvir histórias fantásticas...
- Agora que é famoso, vai nos abandonar às feras! - disse com rancor e inveja, que costumam andar sempre juntas.
- Espero que as histórias fiquem famosas, não eu!
O diretor apertou sua mão, pensando em pedir uma carona para o paraíso, ou pedir o endereço.
- Bem, amigo, vamos sentir sua falta. - disse, sem emoção.
- Vocês ficarão bem. - ele respondeu, pouco convicto.
Ex-professor e diretor abraçaram-se junto à porta do gabinete. No corredor, alguns colegas e alunos o esperavam para um último adeus - aqueles pelos quais ainda valeria a pena algum esforço.
Os alunos do Caetano de Campos não viram diferença entre o antigo mestre e o novo que lhes apresentaram. O calor da sala continuou a impedir que suas mentes se ocupassem de regras gramaticais, obras de antigos autores ou redações sobre assuntos de pouco interesse. Por muitos anos, outro novo herói se equilibraria naquela plataforma guenza, diante do quadro negro manchado pelo uso. As classes arruinadas seriam ocupadas por mais meninos e meninas alheios à necessidade de estar ali, por um período inteiro de seus dias banais, tampouco o jovem professor encontraria razão para ocupar este mesmo tempo com sua ladainha decorada.
Não fosse os poucos interessados, os de sempre, aleatórios, mera condição estatística, e tudo isso perderia o sentido.





